Na Marquês de Sapucaí, tudo brilha. Mas por trás do brilho, existe bastidor. Existe gente. Existe impacto.
Nesta entrevista exclusiva, conversamos com Diego Carbonell, diretor de Sustentabilidade da LIGA RJ, a primeira liga de carnaval do país a estruturar uma diretoria dedicada ao tema dentro da Sapucaí. Mais do que falar sobre ações ambientais, Diego nos conduz por uma reflexão mais ampla e necessária: sustentabilidade como estratégia, como política pública, como transformação social permanente.
Ao longo da conversa, ele explica como a Série Ouro assumiu, de forma organizada, um papel que o carnaval já exercia na prática. Fala sobre educação, combate às desigualdades, oportunidades para jovens, valorização de profissionais do samba e o uso responsável da visibilidade da Avenida como ferramenta de conscientização. Mostra também como números e comportamento caminham juntos, e como parcerias institucionais ampliam o alcance de um projeto que já inspira outros carnavais no Brasil e fora dele.

Mais do que um debate técnico, esta é uma conversa sobre legado. Sobre fazer do maior espetáculo da Terra também um espaço estruturado de cuidado, dignidade e continuidade. Confira a entrevista na íntegra:
1. Em que momento a Liga RJ entendeu que o desfile precisava ir além do espetáculo e assumir esse papel social?
A minha chegada para a criação de uma diretoria de sustentabilidade, a primeira da Sapucaí e de uma liga principal de carnaval do país, já mostra esse entendimento da LIGA RJ. Sabemos que a Série Ouro sempre teve como característica ser um espaço de resistência e impacto social. Quando passamos a olhar com mais profundidade para tudo o que o carnaval movimenta ao longo do ano, como geração de renda, mobilização comunitária e comunicação com milhões de pessoas, ficou ainda mais claro que ele não podia se limitar aos desfiles. Além disso, também entendemos o carnaval como um espaço potente de comunicação acessível, popular e de massa, capaz de levar temas importantes para quem muitas vezes não é alcançado por esse tipo de debate. Era preciso assumir, de forma organizada e responsável, um papel socioambiental que o carnaval já exerce na prática.
2. Como a LIGA RJ amplia o conceito de sustentabilidade para além do meio ambiente?
Vou me permitir me estender um pouco nessa resposta, porque ela é importante para desmistificar a ideia de que sustentabilidade é só meio ambiente. Sustentabilidade é também continuidade, é garantir que algo possa existir, evoluir e se fortalecer ao longo do tempo. E isso passa, acima de tudo, pelas pessoas. A pauta ambiental é fundamental, e por isso temos ações de educação ambiental, circularidade, compensação de emissões, entre outras. Mas nada disso avança se as pessoas não estiverem no centro. Por isso, essas frentes caminham junto com temas como combate ao racismo, enfrentamento à violência contra a mulher, proteção da infância, educação para jovens do carnaval e dignidade do trabalho. Um exemplo prático foi quando oportunizamos mestres de bateria com bolsas integrais de graduação e pós-graduação. Ao fazer isso, mostramos que o carnaval também é um espaço de formação e crescimento profissional. E essa mensagem chega a centenas de ritmistas que veem no mestre uma referência. O recado é claro: o carnaval gera oportunidades, valoriza a educação e forma lideranças. E educação também amplia a consciência para as pautas ambientais. Para nós, sustentabilidade é isso. É garantir que o carnaval seja justo, seguro, inclusivo e responsável. Quando as pessoas se sentem acolhidas e têm oportunidades reais, elas se engajam. E é esse engajamento que assegura a continuidade da festa e o avanço, tanto nas pautas sociais quanto ambientais.
4. Que responsabilidade vem junto com a visibilidade da Sapucaí?
A Sapucaí é um dos maiores palcos culturais do país e do mundo. Com essa visibilidade, vem a responsabilidade de comunicar valores, combater violências e promover o respeito. É inegável que o carnaval influencia a formação de opinião, especialmente em temas sociais urgentes. Mas essa responsabilidade também passa pela forma como a mensagem chega. Não é só o que comunicar, é garantir que a linguagem e as ações façam sentido para quem mais importa, que é o povo do carnaval. Todas as nossas articulações com órgãos públicos partem desse cuidado.Um exemplo foi o projeto “Chique é ser Empoderadas”, em parceria com o Programa Empoderadas. A iniciativa, que já existia, foi formatada para alcançar passistas da Série Ouro, mulheres identificadas com suas comunidades e que muitas vezes não têm acesso à produção profissional. Elas viveram um dia de cuidado, fizeram fotos que fortaleceram sua autoestima e que também podem servir como portfólio, e ainda tiveram essas imagens expostas no Copacabana Palace, com a presença delas. Isso é usar a visibilidade da Sapucaí para gerar reconhecimento, autoestima e oportunidade real.
5. Como transformar mensagens sensíveis em campanhas populares e acessíveis?
Acho que parte disso já aparece na resposta anterior, mas aqui cabe dizer algo simples: ninguém vai à Sapucaí para ter aula de educação ambiental ou para assistir a uma campanha antirracismo. As pessoas vão pelo carnaval, pelo desfile, pela emoção. Então o segredo é ser o menos professoral possível. A estratégia é trabalhar pela imersão. Criar um ambiente onde esses temas estejam presentes de forma natural, integrada à experiência. Que a pessoa perceba a presença da Secretaria de Estado da Mulher, por exemplo, sem precisar ser abordada. Que receba materiais informativos relevantes, sem que alguém esteja dizendo o que é certo ou errado. É um modelo em que eu acredito muito e que, pelo retorno que já tivemos, funciona. A pessoa não se sente invadida e, quase sem perceber, passa a conhecer ferramentas importantes, como o aplicativo Rede Mulher ou o Disque 100 para denúncias de violência, abuso ou trabalho infantil. São informações que podem ser úteis individualmente e que, em escala, ajudam a fortalecer a consciência coletiva.
8. O que as parcerias institucionais agregam ao projeto?
A verdade é que, sem essas parcerias, o projeto LIGA RJ Sustentável não existiria. Para além do peso institucional de contar com secretarias do município e do Estado, e esse ano até com um Ministério, como o da Igualdade Racial, é por meio dessas articulações que o projeto ganha escala. Não seria possível, por exemplo, viabilizar 500 bolsas integrais de idiomas para jovens do carnaval sem a parceria com a Secretaria da Juventude. São essas conexões que dão força, legitimidade e profundidade às ações. Além disso, as parcerias ajudam a provocar algo maior: fazem com que os próprios órgãos públicos passem a enxergar o carnaval como território de política pública. Esse é um legado que buscamos construir. Que campanhas, programas e iniciativas sejam pensados também para o público do carnaval, reconhecendo sua potência, sua dimensão e sua importância social.
7. O que muda quando a sustentabilidade é estruturada e permanente?
Eu poderia dizer que muda tudo, mas, ao meu ver, mais do que “mudar tudo”, a sustentabilidade só existe quando é estruturada e permanente. Inclusive, é importante diferenciar práticas sustentáveis de sustentabilidade. No meio corporativo, é comum ouvir que uma empresa sempre foi sustentável porque, por exemplo, “coleta o óleo da cozinha”. Mas coletar o óleo, por si só, não é sustentabilidade.Se essa coleta não tem periodicidade, não é quantificada, não se sabe para onde vai, o que é feito com esse resíduo, se existe circularidade ou qual impacto gera nas pessoas, quantas pessoas são, quem são essas pessoas, então não existe sustentabilidade, e sim apenas uma ação isolada. Sustentabilidade exige estratégia, metas, indicadores, controle e, principalmente, conexão com a atividade principal do negócio. Um exemplo simples: imagine uma empresa que fabrica eletrônicos. Ela pode ter um excelente programa de gestão do óleo da cozinha, como o que expliquei anteriormente, mas, se não cuida do seu principal impacto, que são os resíduos eletrônicos, não pode se dizer sustentável. Sustentabilidade é olhar para aquilo que realmente gera impacto. E, no carnaval, não é diferente. É preciso pensar de forma sistêmica, olhando o todo. Por isso, como disse no início, não adianta tratar apenas de questões ambientais de maneira isolada se não colocarmos as pessoas no centro, porque são elas que, de fato, impulsionam práticas como separação e reciclagem, redução de impacto, circularidade, tudo isso por meio da mudança de comportamento. É um tema que daria horas de conversa, mas, em resumo, sustentabilidade não é uma ação. É uma forma estruturada de pensar, gerir e agir.
8. Como medir impacto: números ou comportamento?
Gosto muito dessa pergunta e acho que números e comportamento são indissociáveis. Os números certamente vão refletir a mudança de comportamento, assim como a mudança de comportamento vai refletir nos números. De toda forma, gosto de pensar primeiro nas pessoas e no comportamento, que muitas vezes é até não quantificável. Por exemplo, se eu ofereço 500 bolsas de idiomas para jovens do carnaval, o número “frio” é “500 jovens impactados”. Mas há um impacto que não consigo quantificar na vida daquele jovem e daquela família. Ele pode conseguir um estágio ou um emprego melhor, mudar a realidade da casa dele, e isso não aparece imediatamente em um indicador. Ao mesmo tempo, acredito que comportamento também pode e deve ser acompanhado por indicadores qualitativos e de longo prazo, porque é possível estruturar formas de avaliar transformação, mesmo quando ela não é imediata ou puramente numérica. Acho que o caminho é pensar na mudança de comportamento, na conscientização, sem deixar de mensurar, mas focando principalmente nas pessoas no centro de tudo. Só elas podem fazer os números, sejam ambientais ou sociais, melhorarem.
9. A Série Ouro pode servir de modelo para outros carnavais?
Na verdade, ela já serve. Foi por meio do case da LIGA RJ que cheguei como consultor aos carnavais de Florianópolis e Belém e, mais recentemente, ao núcleo de sustentabilidade do Carnaval de São Paulo. A LIESF (Liga das Escolas de Samba de Florianópolis), presidida pelo amigo Joel Costa, por exemplo, tem atuado fortemente nas pautas de acessibilidade em todos os seus eventos e, neste ano, virá com um carro alegórico totalmente elétrico, pela escola Nação Guarani, com o primeiro chassi nesse formato. A ESA (Escolas de Samba Associadas) de Belém, que tem como presidente o genial Fernando “Guga” e para onde estou indo para o segundo ano, coletou quase 5 toneladas de recicláveis no último carnaval e vem se fortalecendo nessa pauta. Já São Paulo, onde tenho uma atuação mais recente nessa frente por meio do projeto Carnaval Sustentável SP, que está sob gestão da querida Lúcia Helena e na presidência de Renato Remondini na Liga-SP, projeta a capacitação de 3.000 profissionais — incluindo presidentes e carnavalescos — na pauta de economia circular ainda em 2026 e acabou de realizar um desfile infantil com mais de 1.500 crianças, trazendo, na abertura, os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU atendidos pela Liga. Esses são apenas alguns exemplos que reforçam como o que temos feito aqui tem servido de referência. E o mais interessante é que cada carnaval tem adaptado a sustentabilidade à sua própria realidade e identidade. Essa troca tem sido muito positiva e já alcança carnavais até fora do Brasil, como o de Paso de los Libres, para o qual, inclusive, conduzi um módulo sobre sustentabilidade no curso de direção de carnaval. Tenho certeza de que os carnavais vão, cada vez mais, inspirar uns aos outros e que a Série Ouro também vai beber de muitas outras fontes nessa caminhada.
10. Que legado você espera deixar ao público?
É difícil responder essa pergunta sem me emocionar. Quando olho para trás e lembro de quando esse projeto ainda engatinhava na Superliga Carnavalesca, na Intendente Magalhães, e o quanto ele era desacreditado, e o vejo hoje ocupando a Sapucaí e ecoando em Belém, São Paulo, Florianópolis e até fora do Brasil, tenho a dimensão do quanto isso foi maior do que qualquer planejamento pessoal. Se eu dissesse que sempre sonhei com tudo isso exatamente assim, certamente estaria mentindo. Mas, agora que aconteceu, tenho a convicção de que esses são apenas os primeiros passos de uma jornada que já é vitoriosa, mesmo que parasse por aqui, o que não vai acontecer. O que eu espero deixar é um legado de consciência e de cuidado. Não só para o público da Sapucaí, mas para o carnaval como um todo. Que as pessoas entendam que o espetáculo que passa diante dos olhos delas é construído o ano inteiro por gente de verdade, com história, sonhos, dificuldades e muita potência. E que essas pessoas sejam cada vez mais reconhecidas, valorizadas e respeitadas, não apenas financeiramente, mas com dignidade e humanidade. Espero que os órgãos públicos e as empresas olhem com mais responsabilidade para quem constrói o carnaval. Que os segmentos historicamente esquecidos sejam lembrados. Que políticas sejam pensadas para quem está na base, para quem carrega instrumento, costura fantasia, constrói e empurra alegorias, e para quem ensaia madrugada adentro. Se o público sair mais consciente das questões socioambientais, ótimo. Mas, para mim, o maior legado é fazer com que ele também enxergue as pessoas por trás daqueles desfiles. Não vejo isso como utopia. Vejo como um processo, desde que mais pessoas, do topo à base, do poder público à iniciativa privada, assumam essa responsabilidade de forma estruturada e permanente. Se conseguirmos fazer do maior espetáculo da Terra também o mais humano e o mais sustentável, então teremos deixado um legado que vai muito além de desfiles memoráveis.
A entrevista com Diego Carbonell deixa claro que a sustentabilidade na LIGA RJ vai além de ações pontuais e se consolida como estratégia permanente. Ao colocar as pessoas no centro e integrar responsabilidade social e ambiental à gestão do carnaval, a Série Ouro transforma visibilidade em impacto real. O legado, segundo ele, não está apenas no espetáculo, mas na continuidade, na consciência e nas oportunidades geradas ao longo do ano.
